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INSiDE – Curta Metragem
Postado por Simone Mascarenhas como Artigos em 27 de outubro de 2009
Premissas Discutíveis
HÁ ALGO DE ERRADO COM AS BASES BIOLÓGICAS DA PSIQUIATRIA?
Quando Steve Hyman, presidente da NIMH (Instituto Norte-americano de Saúde Mental) foi à comissão de bioética do presidente Bush (Commission on Bioethics) defender o aumento meteórico das vendas de Ritalina e outros calmantes para as crianças, ele não evocou um único estudo que demonstrasse as bases biológicas do quadro designado como Desordem de Déficit de Atenção e Hiperatividade (DDAH), nem tampouco citou um único estudo que mostrasse a reais vantagens do uso de medicamentos como esse (a Ritalina) para as crianças. Ao invés disso ele apenas citou “as taxas de 50 % de concordância de esquizofrenia entre gêmeos idênticos”. Essa assertiva é utilizada para dizer que, como existe uma base biológica para a doença mental, no caso a esquizofrenia, todas as outras doenças também têm base biológica, excelente justificativa para o emprego de agentes químicos que modificam as funções mentais. Mas, evidentemente, é muito estranho que se utilize apenas esse argumento: se houvesse realmente bons indicadores biológicos que pudessem comprovar esse conceito de enfermidade eles necessariamente seriam apontados. Esse tipo de posicionamento faculta qualquer um a se perguntar se essa “pretensa” patologia tem, de fato, bases orgânicas.
A UTILIDADE DOS ESTUDOS COM GÊMEOS
Hoje em dia, mais do que nunca, os genes são responsabilizados por tudo que tem difícil explicação em medicina, mais ainda em psiquiatria, principalmente quando a simples presunção de “organicidade” justifique terapêuticas medicamentosas.
Mas têm ecoado no meio científico vários autores que resolveram reexaminar algumas “verdades” das ciências médicas. Principalmente quando essas verdades são obtidas por métodos estatísticos. A revisão nas estatísticas realizada pelo dr. Uffe Ravnskov pôs por terra toda a teoria de que a doença cardíaca seria ligada ao consumo de gordura saturada e as altas taxas de colesterol. Um outro autor, o psicólogo Jay Joseph, escreveu o livro: “The Gene Illusion” (A ilusão genética), onde examina em minúcias a pedra-fundamental da psiquiatria moderna, baseada em medicação: o estudo com gêmeos, que provariam que a esquizofrenia é uma doença genética. Segundo esse autor esses estudos constituem uma falácia! Seria um mito, uma mistura de inúmeros equívocos unidos para provar algo que precisava ser provado, alinhavado pelo uso tendencioso da matemática. Em um artigo da revista “The Human Nature Review”, em 2003, outro autor, Jonathan Leo, faz um exame da obra de J. Joseph, citando os aspectos mais preponderantes, e impressionando o leitor pela marcada fragilidade do conhecimento convencionalmente aceito que daria sustentação à premissa biológica da psiquiatria.
Joseph propôs esse tema: “Estudos com gêmeos em psiquiatria: ciência ou pseudo-ciência?”, na revista Psychiatry Quartery (primavera de 2002). Nesse artigo ele lembra do psiquiatra Abraham Myerson, que escreveu em 1925, sob a égide da influência do eugenismo, que os genes deveriam ser muito importantes, mesmo sem haver como provar sua real existência, pois todos conhecemos talentos hereditários, virtudes hereditárias, vícios hereditários etc. Nada além de preconceito.
Apesar de haver estudos que parecem, num primeiro olhar, oferecer provas de que há uma questão genética por detrás da esquizofrenia, quando esses dados são submetidos a exames mais qualificados, essas provas são dissolvidas.
Tradicionalmente, se compara a freqüência de gêmeos idênticos com gêmeos fraternos portadores de esquizofrenia. A esmagadora maioria dos livros texto de psiquiatria cita que o fato de haver uma concordância de 50% para gêmeos idênticos contra 15% entre os gêmeos fraternos como a prova irrefutável de que essa doença tem base genética, portanto causa biológica, sendo uma enfermidade similar, por exemplo, à hemofilia. Assim sendo, só mesmo estratégias químicas podem ser de utilidade. Se criou uma premissa em psiquiatria que justificaria tudo o que viria depois: a maciça abordagem medicamentosa sobre as manifestações psicológicas. (Porém muito do que veio ‘depois’ está sendo duramente criticada por inúmeros estudiosos em todo o mundo. (Talvez um pouco menos no Brasil)).
Joseph revisou TODOS os estudos com gêmeos apontados nos artigos e livros de psiquiatria. E no final de sua revisão não conseguiu mais, na melhor das hipóteses, do que eventuais 20% de concordância entre gêmeos idênticos. Ele ainda relata que alguns pesquisadores, de fato, não tinham encontrado taxas elevadas de concordância. Mas outros cientistas preocupados em salvar o mito “ajudavam” tais pesquisas a ficarem com taxas mais “aceitáveis” à regra geral, empregando fatores matemáticos de correção, geralmente injustificáveis. Algumas pesquisas que não se enquadrariam simplesmente seriam omitidas. Um desses estudos, que apresenta uma das maiores amostragens populacionais, não chega a 11% de concordância entre gêmeos idênticos e esquizofrenia.
As pesquisas com gêmeos, idênticos, mas que foram criados separadamente, apresentam grosseiros erros de execução, e não deveriam ser levados em consideração. Um deles parece ser obviamente manipulado.
Leo fala da interessante pesquisa mostrada na revista Science, sobre um alelo de genes ligados ao polimorfismo da 5 HTT (serotonina) presentes em algumas pessoas que poderiam predispor à depressão SE HOUVESSE EXPOSIÇÃO À UMA SÉRIE DE EVENTOS TRAUMATICOS. 86% de pacientes depressivos, submetidos a quatro fatos traumáticos em uma clínica teriam pelo menos uma cópia desse alelo. Porém 72% de pessoas que também tinham esse alelo, e que teriam sido submetidos a eventos traumáticos não teriam ficado deprimidos. Não parece que isso – possuir essa marca genética – torne mais fácil descobrir quem tem maior ou menor tendência de ficar depressivo.
A DOENÇA MENTAL E O MEIO AMBIENTE
Outra grande discussão de ambos os autores é sobre os efeitos do meio ambiente na saúde mental. Mesmo uma doença como a esclerose múltipla, que deve, efetivamente, possuir predicados genéticos, parece precisar de um ou vários estímulos (desconhecidos) ambientais para iniciar sua manifestação.
Embora a questão ambiental sempre seja apontada, efetivamente, têm sido promovidas poucas mudanças que realmente possam gerar benefícios para a saúde mental, principalmente para as crianças que levam o rótulo de hiperativas, visto que mesmo os autores, que são defensores da premissa biológica, costumam dizer que o aspecto ambiental é muito importante.
NÚMERO CRESCENTE
O número de doenças mentais tem se ampliado nos manuais de diagnóstico psiquiátrico mais do que qualquer outro grupo de doenças conhecidas. O primeiro guia de diagnóstico de doença mental (DSM I), de 1952, tinha 60 enfermidades. Passou por quatro revisões, até chegar ao DSM IV, com mais do que o quádruplo do número original. Praticamente qualquer comportamento humano se encontra nesse manual. Dessa forma é difícil não encontrar alguém com alguma enfermidade mental.
Isso pode ter relação com a origem eugênica da psiquiatria americana. Nos anos cinqüenta houve um grande encontro de interesses entre a Sociedade Eugênica Americana, (mais tarde Sociedade de Estudo de Biologia Social), e a Associação Americana de Psiquiatria. A catalogação de comportamento humano poderia ser um indicador bastante forte que daria o adequado suporte para a noção de que haveria indivíduos que melhor representariam a sociedade americana do que outros. Uma das formas pensadas em melhorar a população seria, por exemplo, castrando indivíduos esquizofrênicos ou que parecessem ser. Não é a toa que em pleno século XX, tratamentos psiquiátricos radicais nunca foram proibidos. A terapia com eletrochoque é um exemplo. Outro exemplo foi a do médico que fazia lobotomias de forma itinerante, pelo interior dos Estados Unidos, com um método bem barato: perfurar o crânio do “felizardo” paciente com um quebrador de gelo, introduzido acima do canal lacrimal, com o auxilio, naturalmente de um… martelo! Nada como zelar pela boa conduta das pessoas, fossem elas adultos dementes ou crianças teimosas…
O Prozac, nome comercial da fluoxetina, segundo os relatos desse autor, não poderia ter sido liberado pelo FDA (órgão de fiscalização americano), pois os melhores resultados preliminares teriam sido alcançados quando a fluoxetina foi utilizada com um sedativo adicional. Além do mais os estudos foram feitos com amostras insuficientes de pacientes. De qualquer maneira o Prozac parece estar envolvido com um número muito significativo de problemas, desde a superestimulação, (excitação, ansiedade, insônia) e uma piora posterior do quadro depressivo.
Os problemas mais complicados passam pela questão dos distúrbios motores, que podem ir da acatisia (inquietude motora), sintoma psiquiátrico já bem conhecido em pacientes medicados com anti-psicóticos até um problema insolúvel como a DISTONIA E A DISCINECIA TARDIA. Esses efeitos co-laterais não são situações transitórias, mas sim cicatrizes neuro-funcionais, intratáveis. Esse problema é bem conhecido com o emprego dos remédios usados por esquizofrênicos, sendo que geralmente aparecem com vários anos de uso (usuários de haloperidol ou clorpromazina, por exemplo). Infelizmente somente agora estamos encontrando pacientes com um número de anos suficientemente longo de uso de fluoxetina, para encontrarmos esse irremediável problema.
O DESEQUILIBRIO QUÍMICO DO CÉREBRO
Gary Null também fala em seu artigo da questão biológica. Habitualmente os pacientes são advertidos (ou ameaçados?) sobre o desequilíbrio químico do cérebro para cederem ao uso de algum medicamento que ajude a sua mente e as suas emoções a funcionarem melhor.
O conceito de desequilíbrio químico foi primeiramente exposto ao público em 1963, na revista Life. Esse conceito foi desenvolvido a partir dos estudos que foram realizados sobre os efeitos das drogas psicotrópicas, como o LSD, em diversos tipos de usuários. O raciocínio era simples: se uma droga induzia uma série de alterações psicológicas num individuo normal, provavelmente, desequilíbrios internos no cérebro deveriam explicar os problemas emocionais e de conduta nas pessoas em geral. Buscar esse equilíbrio químico deveria ser a ambição de terapêuticas eficazes. Isso propiciou a medicalização de qualquer comportamento humano, tido como inadequado, nas próximas décadas.
Segundo alguns escritores, esse procedimento foi a base para o uso da ritalina em “crianças problema”. O fato dessa anfetamina parecer ajudar alguns alunos a serem mais maleáveis em ambiente escolar firmou o diagnostico de DDAH. Como existe algo químico que auxilia, então realmente existe uma enfermidade. Isso colocou em segundo plano todos os demais aspectos do eventual problema. É curioso se observar que as crianças com desatenção e/ou hiperatividade não parecem ter qualquer dificuldade em aprender a jogar vídeo game ou ficar horas no computador. Nem mesmo de realizar qualquer atividade que realmente lhes interesse. Também é interessante observar que dificilmente os ambientes sócio-familiares dessas mesmas crianças não sejam fartamente carregados de aspectos psicológicos pouco confortáveis. Quando, antigamente, as crianças passavam um turno na escola e o outro turno todo na rua brincando com outras crianças, fazendo as maiores “artes”, poucos pais e professores se queixavam de crianças com tal tipo de problema. O mundo moderno é um modelo de evolução: as crianças de hoje tomam calmantes. Obviamente porque os modelos de felicidade dos adultos atuais deve ser um “virtuoso” estímulo para as crianças chegarem à maturidade.
O dr Breggin argumenta que se a pessoa não tinha nenhum desequilíbrio químico, com o uso da fluoxetina ela certamente vai ficar. Ele entende que a medicação provoca uma super-estimulacao nos receptores de serotonina no cérebro. Mas o fato é que a situação anterior ao uso do medicamento já seria uma tentativa de busca de um estado de equilíbrio. Dessa forma o organismo, na tentativa de retornar ao estágio pregresso, simplesmente desativa ou elimina alguns receptores dos neurônios. O laboratório Lilly, que lançou esse medicamento, não apresentou estudos a respeito da reversibilidade desse reconhecido problema. O fato do uso contínuo gerar uma lesão tipicamente cicatricial como a discinesia tardia, obviamente nos faz crer que essa perda de receptores é irreversível.
Esse autor relata que enfrentou o laboratório sob juramento, e não houve qualquer refutação aos relatos que demonstrou em seu livro.
Sabe-se que muitas vezes o uso de medicamentos pode ser bastante útil para o alívio imediato de sintomas psíquicos muito desagradáveis. Mas não podemos esquecer que geralmente o remédio não significa a cura de qualquer problema emocional que eventualmente possamos estar enfrentando. Ordinariamente todas as pessoas passam por situações realmente ásperas em suas vidas, e muitas vezes a solução definitiva de certas questões pode ir contra o próprio conjunto de crenças e aspirações desse indivíduo. A maioria das pessoas que passam por “enfermidades mentais” sofre esse processo como fruto de crises pessoais relativamente desafiadoras. Se as premissas de conduta familiar e social forem uma base limitadora na expressão de suas versatilidades adaptativas, esse indivíduo pode efetivamente ter muita dificuldade de superar certas situações de sofrimento.
AS VIRTUDES DOS REMÉDIOS
Os remédios podem reduzir a ansiedade, auxiliar o sono, melhorar a performance cognitiva, mas são apenas ferramentas que qualificam os potenciais de um indivíduo para redefinir suas decisões, de remontar seu caminho, e de elaborar novas escolhas. O cenário futuro é fruto do encontro com as recompensas ambientais objetivas e, geralmente, subjetivas oferecidas pelo meio em que vive, ou daquele que escolherá viver. Mas ainda, na pior das hipóteses, será fruto da eventual falta dessas mesmas recompensas do ambiente de onde não conseguirá escapar. Nesse caso o mundo moderno irá oferecer seus fármacos, cada vez mais modernos, como uma solução de vanguarda… E um diagnóstico psiquiátrico, um suave e científico colchão que poderá justificar seu medo e sua incapacidade de mudar!
Alias, sobre essa noção de progresso vivemos um estranho paradoxo. Quando mais o mundo evolui mais gente precisa de remédio e tratamento psiquiátrico. Nos EUA os gastos com tratamentos psiquiátricos subiram de 3,2 bilhões em 1969 para 33,1 bilhões em 1994. Um aumento de 934%, muito superior ao crescimento populacional. Mas em 1999 já eram de 80 bilhões de dólares! Sem sermos irônicos, com certeza, felizes devem estar os fabricantes de medicamentos.
Será que a evolução da humanidade, se é que ela realmente acontece, não deveria gerar um mundo com um número progressivamente menor de problemas mentais? Será que o progresso não deveria premiar os indivíduos com melhor saúde e menos uso de remédios? Ou será que o panorama paradisíaco, que foi desenhado para o nosso futuro, seria uma fantasia provocada pelo uso de euforizantes e calmantes, que tornarão todos nós anestesiados o suficiente para não desfazer o mito de que o mundo moderno é, graças à tecnologia, um mundo melhor?
José Carlos Brasil Peixoto – 210207OBS.: Sobre a lobotomia como um furador de gelo: O médico entusiasta da lobotomia itinerante era Walter Freeman, veja o resumo desse tema em http://pt.wikipedia.org/wiki/Lobotomia.
Baseado nos artigos:
1) The Hidden Side of Psychiatry – Gary Null, Ph. D.; (baixe o arquivo em pdf aqui! em inglês)
2) Twin Studies in Psychiatry and psychology: Science or pseudoscience? Jay Joseph, Psy. D – in Psychiatry Quartery, Vol 73, No. 1 Spring 2002; (baixe o arquivo em pdf aqui! em inglês)
3) The fallacy of the 50% Concordance Rate for Schizophrenia in identical Twins – Jonathan Leo – in The Human Nature rewiew 3 (2003) 406-415; (baixe o arquivo em pdf aqui! – obs.: em inglês)
Livro: The Gene Illusion – Jay Joseph, 2003, PCCS Books, Ross-on-Wye.
Livro: Talking Back To Prozac: What Doctors Aren’t Telling You About Today’s Most Controversial Drug – de Peter R. Breggin – disponível em www.amazon.com